agosto 19, 2008

À JANELA DO FADO (Livro)

(continuação)

O Jantar de recepção


A azáfama era grande no palco do Coliseu quando Marcelo chegou.
— Então pessoal! É preciso ajuda?
O Cenário estava pronto, tratava-se de uma reprodução do Arco das Verdades, iluminado por candeeiros típicos de rua. A um canto, numa linda varanda, junto a um canteiro de sardinheiras estavam duas cadeiras para os guitarristas. Na parede lateral, um xale gigante preto completava o quadro. Pela abertura do arco numa foto gigante, via-se ao fundo o Douro espelhando a ponte e as luzes da marginal nas suas águas.
Marcelo cumprimentou o Martinho, amigo de longa data.
— Então tudo bem contigo!?
— Tudo bem! E por aqui, como vai isto?
— Está tudo sobre controlo, sabes que esta organização não falha, estou sempre atento a cada pormenor. São 18h30 e tudo está pronto para logo, vou agora ter com os convidados ao restaurante, vamos jantar e pô-los a par do programa. Queres vir ou já jantaste?
— Aproveito e vou contigo, espero que haja lugar para mais um!
— Diz o Macedo, que estão 60 lugares marcados mas só há 59 convidados, como vês…
Desceram Passos Manuel até à travessa com o mesmo nome, num percurso tão perto, não merecia a pena tirar o carro do estacionamento. Pelo caminho, Martinho perguntou a Marcelo:
— Então o teu terceiro livro de poemas quando sai? Está para breve?
— Martinho torno-te a pedir, tem cuidado que ninguém sabe a não seres tu e o editor. Pode ser uma mania minha, mas para já mais ninguém sabe do pseudónimo que uso nos meus livros.
— Tudo bem, só vamos aqui os dois… E sabes o curioso? A Lizete anda desconfiada que os poemas que digo são meus! Vê lá bem como as coisas são…
— Não é só ela, conheço quem os leia e até os cante, e pense que são escritos por um indiano, vê lá tu onde isto vai!
— Essa é boa, não me faças rir… Quem é?
— Uma sobrinha minha por quem tenho muito carinho, aliás, vai cantar logo no concurso.
— Quem é? Conheço todos os nomes da lista!
— Fazemos assim: Tenta adivinhar de quem se trata, quando ouvires as concorrentes, ok?
Chegaram ao restaurante, as seis mesas redondas de dez lugares cada, reservadas pela organização, estavam quase completas, apenas quatro lugares estavam por preencher, mas logo chegaram os “Menos”, com o José Guimarães e a esposa Inês.
Martinho, depois das saudações da praxe fez a apresentação dos convidados, realçando aquele jantar a convite da organização, como forma de agradecer em nome do Clube do Fado do Porto a presença de todos. Salientando, que não se lembrava de ver reunido num jantar, tanta gente ligada ao mundo do fado. Pois estavam presentes: 28 Fadistas; 8 Tocadores; 17 Letristas; 4 Apresentadores e 3 sérios conhecedores do fado que faziam parte do júri desta noite. Acrescentando:
— Isto sem contar com aqueles que acumulam, pois alguns dos letristas cantam e outros tocam.
Finalizando assim a sua intervenção:
— Resta-me desejar-lhes um bom apetite, para este famoso e fabuloso bacalhau à Gomes Sá, digno representante da nossa cozinha portuense, com votos de uma grande noite de fado, que terá inicio, sensivelmente, daqui a uma hora e quarenta e cinco minutos, na nossa linda sala de visitas, que é sem duvida, o nosso Coliseu do Porto.


O Espectáculo


Faltavam trinta minutos para o começo e na sala, talvez só 30% de lugares estavam de vago.
Na1ª fila, cinco das cadeiras centrais estava ocupada com o júri. As restantes do lado esquerdo, estavam reservadas para: O representante da Câmara do Porto e sua esposa; Conservadora do Museu do Fado do Porto e seu marido; Presidente da Comissão do projecto Casa do Artista e sua esposa; Director da Rádio Invicta e esposa.
Ainda na 1ª fila, mas do lado direito, mais oito lugares estavam reservadas com o dístico: “Convidados da Organização”.
Pelos corredores, muita gente conversava, fazendo previsões quanto à classificação. Haviam muitos fadistas conhecidos que não quiseram deixar de estar presentes, dando apoio aos mais novos. Outros esperavam junto aos camarins, na esperança de verem os convidados da noite e terem assim acesso a um autógrafo do seu fadista preferido, estes entretanto, tinham feito a sua entrada pela rua Formosa, optando pela sugestão da organização, para evitar atrasos e aglomerações desnecessárias.
Há hora marcada a cortina no palco foi aberta, ao som duma soberba variação de Álvaro Martins, recentemente falecido.
As luzes dos candeeiros que faziam parte do cenário, acenderam-se, dando entrada a Martinho Conde e Maciel Castro, para a abertura do espectáculo.
Depois de curto intróito, sobre as dificuldades sempre inerentes a este tipo de espectáculo, agradeceram às identidades presentes todo o apoio em especial à Câmara Municipal do Porto pela cedência da sala e pelo apoio logístico prestado à organização, assim como: à Rádio Invicta por toda a publicidade e apoio prestado; à Casa de Fado Xaile d’Ouro pela cedência dos seus tocadores privativos; ao Museu do Fado do Porto, que chamou a si a responsabilidade de algumas despesas, à Comissão do projecto para a Casa do Artista do Norte; E ainda ao público em geral, pois sem a sua presença, não era possível a maravilhosa moldura daquela sala de visitas, que tanto orgulhava a organização.
Depois de pedirem uma salva de palmas a todos os sócios, (deste recém fundado, Clube de Fado do Porto, que guarda já nos seus arquivos mais oito centenas de membros, o que vem atestar a seriedade e boa organização desta direcção, que tem levado a bom termo as propostas apresentadas, como é o casa desta grande noite de fado, que se esperava vir a ser um êxito). Cederam os microfones a José Neves, grande profissional da rádio e amante incondicional da canção nacional, convidado pelo Clube de Fado para apresentar a 1ª parte deste evento. Então a voz inconfundível do Zé Neves ecoou na sala: — Boa noite Coliseu. Boa noite Porto!


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